Complexo de Super-Homem

João é executivo de marketing de uma grande multinacional na área de bens de consumo, onde trabalha há 8 anos como gerente. Poderia-se dizer que é feliz e plenamente realizado, não fosse um único problema: a culpa.
Inconsciente mas devastadora, sua culpa vem sido armazenada paulatina e sistematicamente conforme segue em sua rotina diária de super-homem, onde precisa ser elegante, esportista, articulado, falar 2 idiomas, conversar sobre futebol e política econômica internacional com a mesma desenvoltura; ler os últimos livros dos gurus empresariais, a biografia do Bill Gates, 2 jornais diários; ter vida social ativa, principalmente nos eventos corporativos e (lest but not least) desempenhar uma atividade comunitária ou “socialmente responsável”. Isto para cumprir a agenda de executivo de sucesso.
Mas não é tudo: ainda tem que ir à reunião de pais da escola; à apresentação de ballet e jogo de futebol dos filhos; brincar com os filhos e fazer o dever de casa com eles; levar a mulher para jantar; visitar a mãe e a sogra; ser romântico e falar coisas bonitas e interessantes com a mulher (sim, porque ninguém agüenta mais conversa de trabalho na sua família).
Maria também é executiva, mas num nível acima de João. É presidente da empresa multinacional. Tem a seu favor, quase nada. Ao contrário, tem que se preocupar duas vezes mais que João para manter sua imagem de executiva impávida, acima do bem e do mal (como quer o mercado), pois para ela a cobrança é exponenciada a 10. Afinal, é mulher! E vocês lembram do lugar da mulher desde menina: brincando de casinha.
Mas Maria não queria brincar de casinha, e contrariando a sua “essência” feminina, teve que aprender a ser competitiva já adulta (pois nunca praticou esportes ou lutou contra os Power Rangers na infância). Ou seja, correndo atrás do tempo perdido, estudou muito mais, se preparou melhor e usou sabiamente suas qualidades adquiridas na infância de princesa (além do inato e óbvio instinto maternal) para saber a hora certa de falar, tratar do outro com maior consideração e “segurar mais pratos” ao mesmo tempo. Afinal, além da rejeição natural que enfrenta na carreira executiva por seus chefes, pares e subordinados, tem que representar um forte papel de mãe, princesa, esposa, e tantas outras qualificações que lhe são impostas e cobradas pelos familiares e pela sociedade.
É claro que vivemos hoje um mundo onde as mulheres desempenham cada vez mais papéis de protagonistas do que de coadjuvantes na maioria das sociedades ocidentais e nas mais diversas áreas (política, empresarial, social). Porém, os arquétipos de homem e mulher continuam os mesmos de 50 anos atrás. Apenas nos tornamos mais “receptivos” a aceitar os novos papéis, mas com a mesma intensidade nos impusemos a responsabilidade de cumprir com todos eles ao mesmo tempo. Pior, na maioria das vezes acreditamos que seremos capazes.
A vida é feita de escolhas. Não importa se boa ou ruim, devemos viver bem com elas. Mas é fundamental ter a certeza de que qualquer que seja, nos trará conseqüências. Ter consciência disso é decisivo para evitar que o "complexo de super-homem" vire uma doença crônica, um enfarto, ou relacionamentos desfeitos (conjugais, familiares, fraternais). Como diz Bono Vox : “sometimes you can´t make it on your own”. É óbvio, mas não praticamos. Afinal, temos sempre a sensação de que conseguiremos fazer tudo; sempre.
Seja franco com você mesmo, com sua família, seu chefe, seu cachorro. O que importa é ter a mesma determinação empresarial na sua vida pessoal. Assuma que não vai ler tudo e que só se importará com as informações absolutamente necessárias. Vista a máscara de super-homem junto a seus pares executivos, mas tenha consciência que isto é apenas um estereótipo necessário (pois é isto que esperam). Não acredite que você realmente tem este poder. Estabeleça metas pessoais. Faça um plano pessoal e divida com a sua família. Deixe que eles entendam onde estão, qual o seu papel e de que forma será a sua participação com eles.
Vai doer no começo, mas garanto que o seu sofrimento será muito menor do que as Kriptonitas que você enfrenta diariamente...


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